Esses adultos

A confirmação de mais um casamento desfeito foi o pronunciamento do divórcio por incompatibilidade de gênios. Da separação permaneceu entre o casal um único elo, uma linda menininha com menos de dezoito meses.

A jovem mulher dispensara a pensão e o auxílio, pois, alta funcionária federal, não precisava de esmolas. Queria mesmo era sua liberdade. Assim sendo, ficou feliz da vida. Ele, por sua vez, herdara a fazenda do pai, no interior, e ia pra lá a fim de administrá-la. Como bons companheiros, apertavam as mãos sem ressentimentos.

A menininha ficou com a mãe, indo morar em Santos, pois Laura para lá havia sido transferida. Daí em diante, cada um levou a vida que pediu a Deus.

Ela encontrou outro príncipe encantado, afinado com o seu jeito de ser, um professor universitário, homem bom, que logo se afeiçoou à menina, que, inocentemente, o chamava de tio Victor.

Pouco mais de dois anos decorridos, a menina ouviu de sua mãe:

– Ana Maria, vá tomar seu banho. Vista roupinha nova, hoje você vai conhecer seu pai, que chegou de viagem.

A menina, com cerca de 4 anos, chega, pela mão da babá, até o pai, que a esperava no carro estacionado em frente ao prédio. Aquele homem elegante, bronzeado, que pela primeira vez via e chamava de pai, logo a cativou. Disse-lhe ele ter vendido a fazenda no interior e que, agora, iria ficar perto da filha, morando na cidade vizinha, São Vicente. Administrava uma firma construtora.

A presença do pai passou a ser uma constante nos fins de semana e isso já durava mais de um ano. Ana Maria estava feliz, ganhava bonecas, revistas, doces e passeios. E com o passar do tempo, mais e mais se apegava ao pai.

Ocorreu-lhe uma ideia. A pessoa de quem mais gostava depois da mãe era, inegavelmente, o pai. Que tal se conseguissem dar um passeio com a mãe e o pai juntos?

Assim ficou atenta, à espera de uma brecha para concretizar seu sonho.

Num dos sábados, ao sair para o passeio, passou pela sala e ouvia a mãe ao telefone:

– É da pizzaria Micheluccio? Gostaria de encomendar uma pizza de atum para viagem. Passo ai para pegá-la por volta das dezenove horas.

Como de costume, o pai perguntou-lhe o que queria fazer.

– Eu gostaria de ir ao cinema ver o filme do Batman e, depois, comer uma pizza de champignon no Micheluccio. Essa pizzaria fica ali na Conselheiro Nébias. Eu adoro a pizza de lá!…

Após o cinema, foram à pizzaria. Saboreada a pizza, a menina, esticando o programa, pediu mais um guaraná e depois uma mouse de chocolate.

O pai observava a filha um tanto inquieta, a indagar as horas várias vezes, sem tirar os olhos da porta.

Foi quando entrou Laura. Ana Maria levantou-se e, pegando a mãe pela mão, levou-a até a mesa onde estava o pai.

– Olá, Gilberto – disse Laura. Estão se divertindo?

Gilberto levantou-se, cumprimentando-a com um aperto de mão.

Ana Maria ficou imóvel.

Laura pediu desculpas pela pressa, pegou a pizza e saiu.

– Que foi querida? A mousse não está boa?

O que Ana Maria acabara de presenciar era muito decepcionante! Fizera de tudo para apresentar seu pai à sua mãe… e eles já se conheciam, sem nunca lhe dizerem nada!

– Esses adultos!…

CLÁUDIO DE CÁPUA

(Revista Santos, Arte e Cultura – Janeiro 2008)